Pace da vida

Por Denise Silva
Professora Universitária

Comecei a consumir bebida alcoolica aos 17 anos e o fiz até os 37. Meu pace de levantamento de copo era insuperável. Foram longos 20 anos tentando me encontrar num copo de cerveja. Explico-me: eu me procurava como alguém que mandasse bem, ou seja, todas as minhas frustrações eu tentava afogar via fígado. Não fui bem sucedida. As frustrações sempre estarão lá. O consumo, a comida seja lá o que for exacerbado nunca irá resolver a falta ou o desejo disso ou daquilo. Deve-se “tomar uma por prazer” e não por fuga… Parabéns aos que conseguem. Eu não consegui. Percebi que o copo mandava nas coisas e não eu. Em minha histeria eu não admitia ser vencida.

O que isso tem a ver com a corrida? Algum tempo depois comecei a correr e já dito por aqui, tive “paces” altos e baixos. Fui e voltei, mas foi nesse ano, foi nesse tão conturbado 2018, que o número 20 apareceu de novo: foram 20 corridas de abril (mês em que entrei na Sprint) a dezembro. Percebi que procuro na corrida o mesmo que procurava no copo – superação. A diferença é que estou no controle. A diferença é que não me arrependo no dia seguinte. A maior diferença é que se algo dá errado, tenho várias mãos pra me ajudar como no Desafio da Turma do Pedal quando nos últimos 500 m pude contar com a Camilla Lopes (que estava fazendo 18km e eu 12km) e abria mão do primeiro lugar para segurar minha mão e chegar junto comigo (dia histórico se compararmos o meu pace com o dela). Como na corrida do SESC deste ano, em que Domitila percebendo meu enfraquecimento me ofereceu seu gel e no treino da subida da Meruoca ficou pra trás comigo para que eu não ficasse sozinha. Como no dia que faltou o carro e tive a Patrícia Sampaio pra me dar carona. Na corrida da Ótica Diniz estava Érica oferecendo sua água, ou no treino quando Tamara diz: “vamos só num trote pra gente terminar os 16 sem parar, se parar é pior e chegamos juntas”. No intervalado quando penso que não vou aguentar a Mira aparece e faz os tiros no meu ritmo ou o Celso bate palmas e diz: “parabéns está cada vez melhor”.

Domitila (esq.), Tamara, Patrícia, Mira e eu.

20 corridas em oito meses.

Pergunto-me o porquê de ter me inscrito e ido para tantas corridas. Não corro por troféus. Gosto de correr, sentir o vento e ver o asfalto passando, ficando pra trás e é como se a mágica acontecesse: as frustrações vão se afastando também. Em nenhuma dessas corridas estive a me preocupar em passar de alguém ou de chegar primeiro. Eu só quero me superar, só quero ser melhor que eu fui ontem. Quando eu bebia eu sempre tentava fazer melhor, de modo que eu não ficasse tonta, eu queria provar para mim mesma que poderia beber e não ficar bêbada, e inutilmente eu tentava ser alguém que não sou. Do mesmo modo que não é possível correr descontroladamente, para mim não era possível beber controladamente.

A corrida dá conta de muitas das minhas faltas por que eu não preciso ser a primeira, eu não preciso ser a bam bam bam. Eu só preciso ser eu mesma com todas as minhas mazelas: encurtamento severo, perna esquerda MUITO menor que a direita o que leva meu tornozelo esquerdo a SEMPRE doer, resistência curtinha e muitas dores nas articulações. Essa sou eu, e eu não tenho de deixar de ser todas essas coisas para correr. Ao contrário, a democracia presente na corrida permite que sejamos diferentes. Eu não preciso ser ou procurar ser quem não sou. Eu só preciso cuidar e respeitar os limites do meu corpo. Foi a corrida que me ensinou que meu corpo é limitado. Eu não percebi isso enquanto me procurava no fundo da garrafa.

A corrida me trouxe disciplina e me mostrou que posso controlar as coisas desde que lide com o fato de que tenho limites. A corrida me adestrou quando me deu as rédeas da minha história. Não recebo mais convites de muitos amigos pra sair por que não sou a pessoa que “vira noite”. Os convites hoje são para tomar café da manhã depois do longão ou depois de uma corrida. A maioria das fotos não é mais na balada, mas nos treinos e nas corridas.

A corrida que nasceu apresentou a mim o meu melhor.

Correndo aprendi sobre um negocinho que tira o sono de alguns: pace. Eu gosto dele, mas não daquele que aparece no relógio. O pace que eu gosto é o da vida. Aquele que faz você perceber o valor de cada minuto, aquele que faz você valorizar o sol que nasce. Gosto daquele km/h que gera sorriso misturado com suor, gel e água. Gosto do pace cujo esforço maior é aquele de poder me olhar no espelho e dizer do quanto sinto orgulho de mim. Pace é tempo e não é chronos, é conquista! Eu fiz 12km no Desafio Meruoca e não importa em quanto tempo. FUI EU QUEM FIZ.

Camilla Lopes, minhas 20 medalhas desse ano eu dedico a você que sendo a atleta que é, apenas corre… Os troféus? Eles poderão vir ou não, e você não liga e por isso sempre será a minha estrela das pistas. Obrigada a você minha amiga e à equipe maravilhosa da Sprint, em especial meu chefe Celso que carregando a marca da fé, sempre acredita mais do que nós mesmos.

Eu e Camilla Lopes.

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